Norval Baitello Jr

 

HOMENAGEM 

AO PROFESSOR

NORVAL BAITELLO JR

EM SEUS 70 ANOS

 

 

Apresentação 

 

A soma de todos os anos ao longo dos quais cada um dos autores   deste livro ho menagem tem convivido com Norval Baeitello Jr.      resulta em quase um milênio.

 

A publicação contém esse paradoxo da vida: os vínculos, bons ou  maus, são como forças de atração e repulsa que nos fazem participar  da vida uns dos outros, com maior ou menor intensidade – amigos,  professores, alunos, parentes, leitores desconhecidos. Os relaciona-mentos que construímos uns com os outros permitem que nos  multipliquemos em possibilidades afetivas. 

 

Por isso, ao homenagear os 70 anos de Norval, procuramos  materializar uma amostra das muitas sementes que o professor,  nascido em 29 de novembro de 1949, plantou naqueles que con-viveram e ainda convivem com ele até hoje. 

 

Vínculos, aliás, são um dos muitos temas de interesse acadêmico de nosso homenageado. São daqueles elementos do cotidiano que sua  sensibilidade científica o levou a estudar. Efeito disso são seus  ensaios sobre o homem entômico, o pensamento sentado, a icono-fagia, para citar alguns, todos inspirados pela força heurística de  analogias e metáforas possibilitadas por autores como Ivan Bystrina, 
Harry Pross, Vilém Flusser, Dietmar Kamper, Siegfried Zielinski,  Aby Warburg. 

 

Desse modo, a transformação da investigação e do pensamento de  Norval, tema de reflexão deste livro, revela, lembra e destaca a  miríade de frutos provenientes dos diversos tipos de vínculos  estabelecidos pelos autores com este pesquidor e amigo, cujas ideias  continuam a nos entusiasmar. 

 

Vida longa e que muitos novos vínculos benfazejos possam ainda  ser desenvolvidos por Norval Baitello Jr. 

 

Editor Responsável 
               Leão Serva 

 

 

 

 

Sumário 

 

Alex Florian Heilmair Da iconomania à iconofagia  14 

Alfredo Ogawa Os silêncios de Norval  22 

Ana Paula Gomes Vasconcelos Dada a vida  28 

Birke Mersmann e Dietmar Kamper Das süße Leben ist bitter  32 

Birke Mersmann e Dietmar Kamper A doce vida é amarga  46 

Christoph Wulf Inteligência artificial como desafio à sociedade e  educação  60 

Danielle Naves de Oliveira A obra é sem porquê  84 

Diogo Andrade Bornhausen Sobra a questão da felicidade  88 

Eckhard Furlus Rêve et révolution  94 

Eckhard Furlus Sonho e revolução  114 

Eckhard Hammel Das Sehen und der Blick  134 

Eckhard Hammel Do ver e do olhar  143 

Fabio Ciquini Imagem, devorações e deglutições  148 

Francisco Sierra Caballero El oficio de funambulista  158 

Gunter Gebauer Die Olympischen Spiele von Berlin 1936  164 

Gunter Gebauer Os Jogos Olímpicos de Berlim 1936  174 

Hajo Eickhoff Auge des Leibes  184 

Hajo Eickhoff O olho do corpo  196 

Helga Peskoller A game against delusion  208 

Jorge A. González Norval Baitello, septuagenario/sagitario  218 

Leão Serva Obrigado, Norval  222 

Luiz Carlos Assis Iasbeck De perto, não é normal  226 

Luiza Spínola Amaral As contribuições de Norval Baitello Jr.  242 

 

Maria de Conceição Xavier de Almeida Um anjo que suprime o  tempo, um construtor de enigmas  256 

Marie-Anne Lescourret Pour Norval: la mélancolie du délicat  262

Marie-Anne Lescourret Para Norval. A melancolia do delicado  266

Marisa Muñoz Norval Baitello Jr. Un anarquista místico  270 

Martinho Alves da Costa Junior A mulher nas rochas e o     pensamento das imagens  276 

Michalis Kontopodis Iconophagy in the Classroom  292 

Mikhail A. Stepanov Metabolism of the imagination  298 

Moisés de Lemos Martins Por uma ideia de ciência com memória  e pensamento  304 

Otto Rosales Cárdenas  Barroco y memoria  320 

Raphael Dall’Anese Durante O professor sentado  336 

Rodrigo Browne Sartori Antropofagia - Iconofagia -   Baitellofagia  338 

Rodrigo Daniel Sanches Do fazer científico à Sapientia – como  corpo e como alma, um daqueles caminhos que nos levam do  temporal aoeterno  348 

Ryuta Imafuku Our Common Tongue  354 

Thomas Bauer It’s all About Me and You  360 

Tiago da Mota e Silva Ciência Feliz sobre um fazer do  conhecimento  380 

Viviane P. Sarraf Quando a tese acaba e a vida começa: lições de  um orientador que foi além do trabalho acadêmico  398 

Willian Lopes Dimas O orientador e o “Ritual da Serpente”  412 

 

Hajo Eickhoff

 

O olho do corpo

O sentido do comunicar

                                                                                                                                        

1. Comunicação na ausência da forma 

 

Tudo é comunicação. Encontro e ligação, troca e efeito. O universo é          movimen e desenvolvimento, porque seus elementos se tocam e estão em  intercâmbio incessantemente. Tudo se comunica com tudo – no âmbito f ísico,  químico, biológico, cultural. Os processos incialmente transcorrem além do   conheci-    mento. Sem regras. Essas se desenvolvem pouco a pouco. No   início, há apenas a ausência da forma, o mistério. Algo como luz, energia e  vibrações (cordas). Até que, aos poucos, se formam quatro forças f ísicas. A  força nuclear, que forma núcleos tômicos; depois a força eletromagnética,  que mantém os elétrons no perímetro que circunda o núcleo atômico; depois          a força fraca, que transforma as partículas umas nas outras; e, por último, a   força gravitacional, que agrega os núcleos de hidrogênio e hélio e os adensa  numa névoa, até que, sob a sua força, ela implode em um sol, colocando em  rotação também inúmeros outros sóis, configurandos como galáxias  espiraladas. Ou ela força planetas a gravitarem em torno de um sol, 
produzindo algo tão improvável quanto a Terra. E através delas são perceptí-veis os princípios da química, da biologia e da cultura.  

 

Aquilo que o homem chama de natureza, originalmente é uma pedra em        brasa, feita de átomos e moléculas. Elas também aprendem aos poucos a se  unir em formas que podem se reproduzir e fazem surgir a vida. Elas também  produzem o homem e sua capacidade de pensar sobre si e o universo. Assim,  comunicandose, o universo produz uma sequência de princípios e qualidades  de ordem f ísica, química, biológica e cultural. 

 

O princípio da evolução conduz ao desenvolvimento de seres cada vez mais 
complexos, como os vertebrados, que o homem classificou em cinco classes:  peixes, 

anf íbios, répteis, pássaros e mamíferos que, sucessivamente, são gerados      uns a partir dos outros. A comunicação é um princípio da vida. 

 

2. As cinco classes de vertebrados 

No nível mais elementar dos seres vivos, as células se comunicam entre si.  Mesmo a Física conhece o conceito dos vasos comunicantes. Até mesmo  dentro das células, que funcionam como fábricas gigantescas, tudo é  comunicação: transporte, associação, transformação, excreção e construção.  Cada célula tem a própria estrutura e trabalha para si própria na manutenção  da sua existência e, ao mesmo tempo, se comunica com trilhões de outras  células, como numa associação social, para manter esse sistema altamente  complexo que é o ser vivo. Tal como a célula armazena e retransmite a sua  experiência, assim também a totalidade das células armazena e retransmite  a sua experiência. Por isso, o homem é uma comunidade comunicante de  trilhões de membros unicelulares.  

 

A partir do exemplo dos vertebrados, fica claro como as suas cinco classes 
emergem umas das outras de forma comunicante: como ao longo de milhões 
de anos elas estão em intercâmbio, em desenvolvimento e como ganham em  complexidade, que continuam carregando consigo até hoje, através de       milhões de anos. Os vertebrados são estruturados a partir da coluna vertebral,  que é oiada por um esqueleto axial interno e confere firmeza, postura e   mobilidade ao corpo. O sistema nervoso central é composto de medula óssea,  cérebro e córtex, que transcorre paralelamente ao eixo longitudinal do corpo  e na parte anterior desemboca no cérebro.  

 

Os primeiros vertebrados são peixes que se desenvolveram há cerca de 420 
milhões de anos. Eles respiram por guelras, têm nadadeiras no peito e na     barriga e uma pele com escamas. Eles vivem sem gravidade, uma vez que su   peso específico corresponde ao da água. E é só para breves cochiladas que  eles adotam a posição vertical.  

 

Os anf íbios surgiram há 375 milhões de anos. Sapos, tritões ou salamandras  vivem como larvas na água e respiram através de guelras; depois, em terra,  respiram pelos pulmões. O aumento de peso pela perda da impulsão na água  torna necessário um elemento de apoio. Para se mover para frente em terra,  a partir das nadadeiras organizadas em duplas desenvolvemse extremidades  fortes e um esqueleto com um eixo transversal e uma bacia. O cérebro se  adequa às alterações, formando estruturas para dar conta das novas tarefas.  Os anf íbios desenvolvem um ouvido médio adicional ao ouvido interno.  

 

A transição da vida na água para a vida em terra acontece de forma    continuada. É um período em que peixes apresentam múltiplas formas de  transição. O peixe ósseo respira pelos pulmões e o celacanto consegue  transpor longos trajetos em terra, por exemplo, para procurar um novo local            com água. Suas nadadeiras ficam no final de pernas que parecem hastes de  plantas. O tiktaalik, por sua vez, já tem um esquema de mãos e braços, que  será comum a todos os vertebrados que surgirão depois: um osso do braço  superior, dois ossos do antebraço, uma coleção de ossos como o meio da mão  e cinco irradiando do centro – os dedos. O mesmo esquema vale para as 
pernas e os pés. 

 

Os répteis, que são os primeiros moradores autênticos da terra, como crocodi-los, tartarugas e cobras, rastejam (do latim reptare). Eles se desenvolveram  há 250 milhões de anos. Respiram pelos pulmões, mas, para respirarem sem  o diafragma, precisam da ajuda dos músculos abdominais e peitorais. Como  a sua temperatura corporal corresponde à temperatura ambiente, eles vivem  essencialmente em regiões quentes. Com a vida em terra firme (seca), os  ovos dos répteis precisam ser protegidos para não secarem, o que é feito pelo  âmnion (uma película interna impermeável, transparente e sem vasos). O  âmnion também é necessário para os pássaros e para os mamíferos. Com os  répteis começa a audição, em que ondas de impulsos sonoros são conduzidas  do tímpano através de uma trilha, chamada de columella ou estribo, sendo  levadas para o ouvido interno. Sempre voltam a ocorrer deslocamentos,  desdobramentos, que se instalam a partir da comunicação com o entorno e  com novas funções. 

 

Pássaros são animais voadores, com as características asasplumagem bico.     Eles põem ovos, como os répteis, e, assim como os mamíferos, possuem um   coração com quatro ventrículos. A constituição corporal leve é derivada da  função do voo. Os ossos são finos ou ocos. Os pássaros têm a sua pátria em  todos os lugares da terra. A plumagem serve também para aquecer e, no  caso dos machos, serve para embelezar – como seleção sexual.

 

Os mamíferos se desenvolveram há 200 milhões de anos. O mamute, o cão, o 
boi e o homem têm glândulas mamárias e mantêm a sua temperatura corporal 
constante, independentemente do ambiente. Suas pernas não se localizam       mais ao lado do tronco, mas se esgueiram para debaixo do tronco, que agora  se eleva do chão possibilitando, assim, uma movimentação rápida sobre  quatro pés. A orelha é reestruturada. Para a audição espacial, surge um  pavilhão auricular, e os répteis semelhantes a mamíferos desenvolvem ainda,  além da articulação mandibular, uma segunda articulação reforçada, que se  impõe, e libera os dois ossinhos articulares originais de suas tarefas, que  passam a transitar para o ouvido médio, exercendo a nova função da  condução diferenciada da transmissão das ondas sonoras, como martelo    e bigorna. 

 

É na disposição de seus respectivos sentidos que o exemplar de cada classe de 
vertebrados irá experimentar seus limites e o seu recorte específico do mundo. 

 

3. O homem e a comunicação 

No homem, muitas habilidades f ísicas e mentais encontradas nos vertebrados 
foram desenvolvidas até o estágio do amadurecimento. Muitas especialidades     dos animais foram reconfiguradas em benef ício das habilidades gerais: há   animais que enxergam com maior acuidade visual, que correm mais rápido,  que são mais fortes e percebem cheiros com maior precisão, mas o homem  libertouse de muitos instintos, ainda consegue fazer muitas coisas muito bem  e produz cultura. Ele preserva o que passou, inventa novos produtos  incessantemente e no período de seis mil anos deu uma aparência totalmente  nova ao mundo. Ele é inteligente, criativo, tem autoconsciência, submete a  vida a disciplinas e tem força de vontade.  

 

Ele levou à perfeição a postura dos vertebrados. Ele se mantém ereto com os    dois pés no chão e libertou as mãos. Mas a sua verticalidade não é a sua  última elevação: se ele precisou de milhões de anos para passar de uma  postura envergada para a postura completamente ereta, serão apenas cem  anos para que ele transforme essa postura ereta na curvatura do sentar,  dando à coluna vertebral uma nova forma no sentar cotidiano, transformando-se de um homo erectus em um homo sedens. Pensando no mecanismo   interno e na configuração da coluna vertebral, o sentar em cadeiras é uma  continuação da elevação.  

 

A intensificação e a ampliação da comunicação entre pessoas e entre culturas 
dão-se a partir do estabelecimento em um lugar fixo e da construção de      moradia. O homem utiliza o imóvel casa para otimizar de forma profunda o  intelecto, a emoção, a ação e a comunicação por meio de tecnologias e para  levar as pessoas para contextos comunicativos mais estritos, o que só é  possível com poder territorial, que pressupõe um local seguro e produtivo  como a casa, a partir do qual as comunidades estabelecidas sempre poderão    voltar a conquistar novas terras: elas saem em bando, criam e fixam novos  locais e pouco a pouco vão desbravando a terra e a revestem com uma rede   de povoados, rotas de comércio, vias de trânsito e autopistas de dados em   conexão. Uma condição básica para a terra poder ser explorada e as pessoas  de culturas diversas poderem se encontrar depende diretamente do e stabelecimento de locais fixos. Opiniões, necessidades e intenções são  trocadas ali por meio da fala e da mímica, da escrita e de gestos,     aproximando assim, aos poucos, as culturas do mundo. 

 

4. Os seis sentidos e as outras partes do corpo 

Os órgãos sensoriais são portões comunicativos para o mundo. Eles abrem um 
mundo para as pessoas. Por meio deles, o homem se comunica com as      diferentes qualidades. Do lado de dentro, ele percebe a respiração e o   movimento, a batida do coração e a própria fala – a interocepção; de fora  entram dados que recaem sobre os sentidos – a exterocepção; e dos fusos  dos músculos, tendões e das articulações são transferidas para o cérebro  informações constantes sobre a posição e a mudança de posição de cada uma  das partes do corpo em relação umas às outras, bem como sobre seus       ovimentos no espaço – a propriocepção (autopercepção). Os seis sentidos  trabalham em estreita colaboração e estão associados ao cérebro e às  diversas partes do corpo. 

 

Os órgãos sensoriais se formaram a partir de uma base diferenciável do         plasma das células e se desenvolveram até órgãos cada vez mais complexos.  Os sentidos captam o momento e constroem autoimagens e imagens do  mundo com lembranças e concepções mentais. Para tanto, eles trabalham em  conjunto de forma variada e multifacetada os músculos e as artIculações –  a autoPercePçÃo É graças à autopercepção que o homem consegue se   movimentar e f icar ereto. É só através dela que ele consegue ter certeza do  próprio corpo. A  autopercepção é o órgão sensorial responsável pela  comunicação com o espaço. Com o espaço que é o próprio homem e com o  espaço que o circunda. O homem localiza o próprio corpo no espaço que o c ircunda, registrando o movimento e a postura no campo gravitacional da terra,  como se fosse com uma f ilmadora. A autopercepção é o resultado de  informações constantes das fusas dos músculos, dos tendões e das  articulações enviadas ao cérebro com a f inalidade de conduzir a postura e o  movimento. Ela é um sentido interno. Ele trabalha junto com o órgão do  equilíbrio e a percepção visual, produzindo, através dos juízos e da auto-avaliação, a imagem do corpo – a imagem que o homem faz de si próprio.  

 

Se a autopercepção falhar, surgirá uma sensação de incorporeidade, pela qual 
os movimentos e posturas não se dão mais de forma automática, mas serão  conduzidos apenas com auxílio dos olhos. Sendo assim, o movimento e a     postura sacrificam a sua naturalidade, parecendo mecânicos. 

 

Pele – o tato 

A pele é o órgão sensorial responsável pela comunicação com superf ícies, 
substâncias e gases. O homem desbrava o mundo tateando-o. Ao mesmo     tempo, é através dele que o homem aparece. Como casa, capa, casca, camisa,  testículos e calça como espelho da alma. A pele é o maior órgão humano,  pesando de dez a catorze quilos. A pele é sensível. Em diferentes graus. A  testa ainda sente os 0,075 miligramas de uma asa de mosca em queda. Sobre  a pele vivem mais micróbios do que humanos na Terra, que afastam venenos  e micróbios agressivos de fora e ampliam a comunicação com o mundo.  

O homem depende de contato f ísico, não conseguindo crescer ou viver sem o 
sentido do tato. Por isso, já desde cedo a natureza instalou uma função  importante: o homem pode tocar, pegar, agarrar e tatear a si próprio, algo  que um embrião de poucas semanas já faz. A pele é o órgão sensorial mais  comunicativo, porque se volta para fora. 

 

orelha – a audIçÃo 

A orelha é o órgão sensorial responsável pela comunicação com as vibrações       e o ritmo. O homem desvenda o mundo pela audição. Ouvir é a percepção  acústica de ruídos, de música e palavras. É o órgão responsável pela captação  do som, por sua condução e pelo seu processamento: o pavilhão auricular  capta o som e o transmite para o tímpano, de onde ele é intensificado através  da orelha média com auxílio dos menores ossos do corpo humano – martelo,  bigorna e estribo, chegando então à janela oval e sendo conduzido até o  nervo auditivo na orelha interna. 

 

Originalmente, a orelha não servia para ouvir, mas era o lugar do órgão do 
equilíbrio. Só os mamíferos é que vão completar e diferenciar as funções da  orelha. Só a orelha interna transforma estímulos sonoros em impulsos  neurais e os conduz ao sistema nervoso central, onde acontece a avaliação.  

 

A audição espacial facilita a orientação no espaço e serve de sistema de  alarme. Os estímulos acústicos relevantes são recebidos e eventualmente  intensificados e os impulsos irrelevantes são filtrados. A audição é um órgão  feito para os laços sociais entre as pessoas. A surdez isola a pessoa, mais do  que a cegueira ou a perda do paladar ou do olfato. O som específico da voz  pode criar confiança e proximidade. E a percepção da fala serve como  comunicação e troca de notícias.

 

narIz – o olfato 

O nariz é o órgão sensorial da comunicação com os gases. O homem explora         o mundo cheirando. Através do nariz, o ar que se respira é inspirado e      expirado, sendo que o ar frio é aquecido na superf ície da mucosa nasal e o  ar seco é umedecido. O nariz serve para perceber os cheiros, regular o fluxo  respiratório, limpar o ar respirado, adequar o ar respirado à temperatura e à  umidade e tem função de alarme diante de substâncias prejudiciais.  

 

É graças ao nariz que conseguimos respirar também de boca fechada. Um  bebê que é amamentado consegue inspirar e expirar pelo nariz enquanto  mama. Todos os mamíferos dependem da respiração pelo nariz após o  nascimento e enquanto estão sendo amamentados. Mais tarde, ela pode ser  reaprendida através da respiração circular, tal como utilizada ao se soprar  vidro ou ao tocar o didgeridoo. 

Os seios nasais são vários espaços preenchidos de ar que estão associados ao  nariz. Eles têm a função de corpos sonoros, conferindo ressonância e timbre   à voz.  

 

língua e o Palato – o Paladar 

A língua é o órgão sensorial da comunicação com substâncias e gases. O      homem explora o mundo degustando-o. As modalidades são doce, azedo,  salgado, amargo e umami. Cada modalidade estimula as células sensoriais de  um modo específico nas papilas gustativas da língua. 

 

Ao longo da evolução, o paladar assumiu funções importantes: ele verifica         se o alimento é adequado às células e aos órgãos, ou seja, ele verifica se os  componentes do alimento podem ser transformados em substâncias do  próprio corpo. Durante a exploração, o paladar tem o apoio do nariz.  

 

Bebês não se entusiasmam com alimentos azedos, amargos e salgados. O       sabor umami tem efeito neutro. Eles não gostam do amargo, porque muitas  substâncias venenosas têm sabor amargo; não gostam do que é salgado,  porque a evolução comunica a eles que isso pode prejudicar os rins; e não  gostam do que é azedo, porque pode se tratar de frutas que ainda não  amadureceram ou que estão estragadas. O que resta é uma predileção do  bebê por alimentos doces, que por causa do teor de carboidratos, fornecem  energia de forma rápida. Existem cerca de vinte vezes mais receptores  gustativos para elementos amargos do que para os doces, o que indica uma  proteção. Uma vez que fornecem energia rapidamente e aumentam a concentração de endorfinas no cérebro – aquelas substâncias mensageiras  que desencadeiam a sensação de felicidade – as frutas e os grãos são o lado  agradável e doce da alimentação. 

 

olho – a VIsÃo 

O olho é o órgão sensorial da comunicação com as superf ícies. Elas são  exploradas através da luz. O homem explora o mundo com o olhar.  Atravessando o olho, formase na retina uma imagem invertida, de cabeça  para baixo. Os estímulos uminosos são registrados pelas células sensoriais da  retina – os bastonetes e os cones. 

 

A percepção espacial trabalha com diversos procedimentos para produzir uma 
representação do mundo tridimensional a partir da imagem bidimensional na 
retina. Por meio da visão estereoscópica, as informações espaciais podem ser 
construídas a partir das pequenas diferenças entre as imagens recebidas pelo     par de olhos. 

 

O olho é ativo. Ele seleciona e tenta criar uma representação aplicável do      mundo em meio ao enorme fluxo de informações permanentes. Em associação   a outras áreas do pensamento, as sensações são organizadas, filtradas,  avaliadas e atreladas a conteúdos da memória e experiências, para que  possamos lidar aparentemente sem esforço com o nosso entorno extrema-mente complexo. Ele é considerado o órgão mais importante do homem. Ele  consegue distinguir dez milhões de tons e cores e um único fóton desencadeia  um estímulo. O homem obtém oitenta por cento das informações acerca do  mundo através dos olhos, sendo que um quarto do cérebro participa do  processamento dessas informações. 

 

O olho é um órgão sensorial que está associado a conhecimento e teoria. A  clareza e esclarecimento. Sessenta por cento do córtex se ocupam do sistema  visual. 

 

5. O corpo e a comunicação digital – o fim dos sentidos? 

A forma antiga de comunicação é o analógico enquanto continuum. Com 

a digitalização, valores analógicos são transformados em formatos digitais e 
as informações são arquivadas digitalmente, tornandose disponíveis para o  processamento eletrônico de dados. Atualmente, a digitalização domina toda  a sociedade. Depois da utilização do digital como ferramenta do mundo do 
trabalho e do privado, bem como após o fomento de habilidades f ísicas,     agora se trata de reparar ou de otimizar estruturas mentais, o que muda  radicalmente as formas de comunicação. 

 

Um espaço fantasmagórico em que o homem está inserido e de onde ele se 
comunica. Nesse espaço preenchido pelo corpo, o homem tem habilidades 
inconscientes em relação ao movimento, à localização e à postura no espaço.        A substância que preenche esse espaço é majoritariamente a carne, tecido  mole, como órgãos, músculos, cérebro e tecido conjuntivo. Peças de  máquinas, ao contrário, são duras e estranhas ao corpo. Quando, assim como  no cyborg, carne e máquina se comunicam, dá-se o estranhamento. 

 

Cyborgs são seres mistos. Tecnicamente, são homens reparados ou otimizados, 
sendo duráveis por causa de peças estranhas ao corpo: uma comunicação       entre a carne viva e a máquina. Na otimização digital através de microchips,  os órgãos sensoriais e partes do cérebro sofrem um reparo ou suas funções  são ampliadas. Na Suécia, há carteiras de identidade em forma de chips  implantados; apresentações podem ser conduzidas pelo pensamento através  de gestos, próteses e teclados; implantes cocleares já são rotina cirúrgica. 

 

No futuro, haverá uma comunicação cada vez maior entre a vida analógica e a 
digital. Mas como a imagem f ísica do corpo humano será transformada pelas 
novas mídias? Quando usarmos aparelhos estranhos dentro e fora do corpo,    como smartphones e smartwatches? Ou o que mudará se ficarmos muitas  horas em frente a um monitor? E por que toleramos essas formas de  comunicação quando estamos junto de outras pessoas e todos olham para o  display do celular? E, principalmente, como a imagem do corpo se transforma,  quando máquinas na carne se atrelam aos órgãos, tal como um corpo  estranho implantado no cérebro para sempre, que incessantemente emite  impulsos elétricos? 

 

A nossa comunicação parece já estar tão comprometida que nós, tornados 
insensíveis, apenas assistimos à mudança climática, à pesca predatória, à   pobreza, ao envenenamento da atmosfera, às guerras ou ao lado obscuro da  internet com abuso de dados e à compra ilegal de armas. Mesmo vivenciando  uma constante melhora nas circunstâncias de vida da maioria das pessoas. 

 

Será que a inteligência artificial, clones e cyborgs conseguirão controlar    melhor os problemas e efeitos colaterais dos nossos atos do que a  humanidade tradicional, humana, para reduzir sensivelmente a injustiça,  a pobreza e a guerra? 

 

A aquisição de possibilidades é importante, familiarizar-se consigo mesmo –      com as novas mídias e máquinas – até que se sinta o caráter parcial de  máquina. Assim, poderíamos de fato nos sentir como cyborgs e verificar se  isso corresponde à nossa imagem do corpo, e poderíamos eventualmente  antecipar os perigos que nos ameaçam enquanto espécie e entender o que  elementos semelhantes a máquinas podem causar no homem e como  enfrentar isso.  

 

Precisamos de novas formas de comunicação. Pessoais, comunitárias e 
interculturais. Elas precisam ser capazes de considerar as ferramentas digitais. 
Sendo assim, precisamos perguntar quanto de digitalidade e alteração        genética podemos integrar em nós mesmos, sem nos sentirmos como  máquinas. Precisamos da utopia de uma comunicação e cooperação mundial  entre pessoas que se dediquem com engajamento à justiça, à ausência de  violência e à sustentabilidade. O homem é um ser comunitário, um ser com  senso de comunidade e senso de sociabilidade, que surge a partir de  compaixão, sentimento e responsabilidade. Isso permanece inacessível à  inteligência artificial e aos cyborgs. 

 

Precisamos de um otimismo crítico que nos inspire a configurar o futuro com 
autoconfiança, no sentido de um humanismo atento. O cyborg é problema      de um único corpo e de uma única existência de software, mas não da  comunidade, uma vez que ele não precisa dela: ele é um solitário digital. Em  oposição a isso, o homem sentirá a sua tarefa tão especificamente humana  e manterá o sistema da sociedade como espírito de comunidade e        comunicação. 

 

 

© Hajo Eickhoff 2020

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25. Mai 2020

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